8.1.07
Inédito
Isso era para sair no Varal, um zine que, por enquanto, ainda esta no papel. Então, pra não mofar:
Páscoa
Hoje eu nasci e ninguém vai atravessar essa porta. São 14 anos e sete mágoas, cada mágoa com sua certeza. Catorze anos de dor que não cabem nesse corpo, cheio, inchado. Tenho que crescer logo pra não rasgar essa pele, para caber dentro de mim. Mas eu já sei, já vi o que acontece: hoje ninguém vai atravessar aquela porta. E eu vou assoprar as velas sozinho e guardar os aplausos para outro ano qualquer. Porque o fato é que algum tempo vai se arrastar até eu ter quem me felicite por qualquer coisa. Nem que seja por essa persistência em respirar, de continuar por aqui, nesse quarto abafado, nessa cama úmida de suor. Que eu continuo vivo; sobrevivo. Não há mesmo o que celebrar. O que há é essa miserável existência, e por mais que eu procure atrair outros praqui, o trinco emperra, o chão se abre e o cômodo esmaga. Meu corpo me esmaga. Eu moro aqui, desse lado do batente, torcendo pra um dia achar alguém que me dê parabéns. Qualquer.
São catorze velas no bolo e oito mágoas dentro de mim.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()