A Descoberta de Moleque (
Renata Corrêa)
Dos pregos e dos pedaços de madeira, sequer tomava conhecimento. Não tinha medo de tétano, frieira, lombriga, ou bicho de pé.
Corria pela arena, embriagado pela descoberta: a lona, azul e amarela, com uma fina camada de poeira, escondia o circo abandonado, o tempo, revelando sua face mais cruel.
Para o moleque não importava. Subia, descia, ouvia (corneta!), cheirava (pipoca!), pegava (balão!), todas as coisas subíveis, descíveis, cheiráveis, pegáveis e imagináveis que avistava pela frente.
Pausa para o leitor: Moleques são meninos com uma lógica diferenciada. E na lógica dessa espécie, não existe sentido no fato de um lugar tão espetacular não possuir dono. Fecha a pausa, leitor. Pode continuar.
Resolveu então esperar. Guardaria sua novidade dos eventuais intrusos. Mesmo que voltassem a bailarina, o palhaço ou até mesmo o leão, não arredaria dali. Era seu e ponto. Sentia-se proprietário dos furos na lona, do trapézio despencado, da cama elástica frouxa e por isso, faria dali seu forte, e o defenderia de todo mal.
Preparando sua tática, não percebeu a noite (moleques são assim: ignoram ponteiros.) e cansado, adormeceu numa velha arquibancada, sonhando sonhos malabaristas.
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Os Sonhos Malabaristas (
Abner Dmitruk Carrazzoni)
E lá de longe a bailarina entrava rodopiando na ponta dos pés, seguida pela única luz que iluminava todo o ambiente. Uma música doce e sutil a acompanhava, e ela dançava sozinha, de olhos fechados, sempre por cima do contorno amarelado que a luz fazia no chão.
O espetáculo durou pouco. O escuro que cobria as arquibancadas escondia o vazio em que as mesmas se encontravam. Ninguém estava lá para assistir, como se fosse um ensaio silencioso de um monólogo sem palavras. A mulher sai pelo lado direito do palco, e pouco a pouco vai perdendo a sua graciosidade. Deixa um pedaço de renda aqui, outro ali. Vai entrando pra trás da lona e se desfigurando a cada passo. Bota um cigarro na boca e vai andando até uma casinha lá fora, de madeira improvisada e com a porta mal fechada.
Dentro do recinto se encontravam o leão e o palhaço, os dois entretidos num jogo de baralho. O leão compara as cartas quem tem na mão com as que vê na mesa. Solta um seis de paus e limita-se a dar um sorrisinho irônico pro palhaço, que já começa a ficar desconcertado com a situação. A bailarina, ainda com uns pedaços do vestido rosa o adverte:
- É a sua vez. Eu já terminei a minha parte. Me dá aqui essas cartas e vai lá que eu termino aqui o jogo pra você.
O palhaço obedeceu, e com os olhos inchados e vermelhos virou o resto que sobrara da última garrafa de cachaça que deixava ali do lado. Pegou as outras duas garrafas já vazias e saiu fazendo malabarismos, cambaleando pra todos os lados e dando passos desconcertantes pra não deixar que as garrafas caíssem.
O jogo dentro da sala continuou. A bailarina, ainda fumando o resto do cigarro que tinha pegado há meia hora, jogou a última carta na mesa e declarou a sentença:
- Você perdeu. Pode ir me passando dois chicletes, e daqueles que fazem bolas grandes sem explodir.
O leão tira do bolso de pêlo os tais chicletes e a entrega, já mudando de assunto,pra disfarçar a derrota:
- E o palhaço tá demorando, hein?
- Vamos lá ver o que ele anda aprontando.
Encontraram o palhaço caído num canto do palco, com as três garrafas de cachaça na mão, o chapéu tampando quase todo o rosto, deixando à mostra apenas o sorriso torto que ia de orelha a orelha. Dormia um sono de uma tonelada, roncando, assobiando e deixando escorrer pelo canto da boca uma baba gosmenta que já pingava no suspensório mal arranjado.
Colocaram-no em seus ombros. O leão de um lado, a bailarina do outro, o palhaço no meio. E saíram de palco dançando alegremente qualquer uma dessas melodias francesas.
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Redescobrindo Moleque (Vitor Leal Pinheiro)
E o moleque gritou esganiçado:
- Ei, aonde pensam que vão? Não estão esquecendo nada, não?
O Leão e a Bailarina voltaram-se assustados, derrubando o palhaço no chão.
- Mas quem é você?
- Sou o dono disso tudo isso aqui. Do chão de serragem ao teto de lona. Do trailer sem portas à jaula sem grades. Sou dono de cada e de todos... Vocês acharam que iam se mandar sem a apresentação? Onde foi parar o domador? Bah, deixa que eu mesmo domo.
E desceu a arquibancada, e atravessou o picadeiro, e cartola, e chicote, e microfone.
- Respeitável público! - disse, igual aos seus sonhos - Respeitável público! - Mas não havia resposta.
E o moleque pensou e olhou e falou de si para si: aqui quem manda sou eu.
- Respeitável público! - E um burburinho surgiu em meio à escuridão.
E o show começou. E palhaço e bailarina e leão eram jovens e fortes e belos. E eram trapezistas, engolidores de facas, faquires, elefantes que dançam. Equilibristas e equilibrados. Eram até pipoca e maçã do amor.
E para onde se olhava era mágica e música. Era choro de criança e risada de adulto. E as horas passaram e o show terminou. E o menino acordou homem. E o homem lembrou que era menino e que o circo se foi. E o menino acenou para o homem, do último vagão. E lágrimas.
Havia lágrimas.