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16.12.04


Liga dos Blogs Amigos
Quem acompanha o MetrôLinguagem há algum tempo, presenciou a primeira edição da Mega Liga dos Blogs Amigos, em que eu, Renata Corrêa e Abner Carrazzoni publicamos uma história em três capítulos, sobre um tema, circo no caso. Após diversos pedidos, teremos nova edição da Liga, dessa vez com 2 convidados, Leo e Olivia, e com o intuito de institucionalizar a coisa, publicando periodicamente. Enquanto decidimos os detalhes, vou postar a versão integral da primeira, para aqueles que não leram poderem fazê-lo com mais facilidade (assumimos: fica difícil de ler assim, pq tem que voltar no histórico e tal). Aproveitem!

Ps. ah, a próxima edição deve sair na segunda semana de janeiro.

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()

A Descoberta de Moleque (Renata Corrêa)

Dos pregos e dos pedaços de madeira, sequer tomava conhecimento. Não tinha medo de tétano, frieira, lombriga, ou bicho de pé.
Corria pela arena, embriagado pela descoberta: a lona, azul e amarela, com uma fina camada de poeira, escondia o circo abandonado, o tempo, revelando sua face mais cruel.
Para o moleque não importava. Subia, descia, ouvia (corneta!), cheirava (pipoca!), pegava (balão!), todas as coisas subíveis, descíveis, cheiráveis, pegáveis e imagináveis que avistava pela frente.
Pausa para o leitor: Moleques são meninos com uma lógica diferenciada. E na lógica dessa espécie, não existe sentido no fato de um lugar tão espetacular não possuir dono. Fecha a pausa, leitor. Pode continuar.
Resolveu então esperar. Guardaria sua novidade dos eventuais intrusos. Mesmo que voltassem a bailarina, o palhaço ou até mesmo o leão, não arredaria dali. Era seu e ponto. Sentia-se proprietário dos furos na lona, do trapézio despencado, da cama elástica frouxa e por isso, faria dali seu forte, e o defenderia de todo mal.
Preparando sua tática, não percebeu a noite (moleques são assim: ignoram ponteiros.) e cansado, adormeceu numa velha arquibancada, sonhando sonhos malabaristas.

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Os Sonhos Malabaristas (Abner Dmitruk Carrazzoni)

E lá de longe a bailarina entrava rodopiando na ponta dos pés, seguida pela única luz que iluminava todo o ambiente. Uma música doce e sutil a acompanhava, e ela dançava sozinha, de olhos fechados, sempre por cima do contorno amarelado que a luz fazia no chão.

O espetáculo durou pouco. O escuro que cobria as arquibancadas escondia o vazio em que as mesmas se encontravam. Ninguém estava lá para assistir, como se fosse um ensaio silencioso de um monólogo sem palavras. A mulher sai pelo lado direito do palco, e pouco a pouco vai perdendo a sua graciosidade. Deixa um pedaço de renda aqui, outro ali. Vai entrando pra trás da lona e se desfigurando a cada passo. Bota um cigarro na boca e vai andando até uma casinha lá fora, de madeira improvisada e com a porta mal fechada.

Dentro do recinto se encontravam o leão e o palhaço, os dois entretidos num jogo de baralho. O leão compara as cartas quem tem na mão com as que vê na mesa. Solta um seis de paus e limita-se a dar um sorrisinho irônico pro palhaço, que já começa a ficar desconcertado com a situação. A bailarina, ainda com uns pedaços do vestido rosa o adverte:

- É a sua vez. Eu já terminei a minha parte. Me dá aqui essas cartas e vai lá que eu termino aqui o jogo pra você.

O palhaço obedeceu, e com os olhos inchados e vermelhos virou o resto que sobrara da última garrafa de cachaça que deixava ali do lado. Pegou as outras duas garrafas já vazias e saiu fazendo malabarismos, cambaleando pra todos os lados e dando passos desconcertantes pra não deixar que as garrafas caíssem.

O jogo dentro da sala continuou. A bailarina, ainda fumando o resto do cigarro que tinha pegado há meia hora, jogou a última carta na mesa e declarou a sentença:

- Você perdeu. Pode ir me passando dois chicletes, e daqueles que fazem bolas grandes sem explodir.

O leão tira do bolso de pêlo os tais chicletes e a entrega, já mudando de assunto,pra disfarçar a derrota:

- E o palhaço tá demorando, hein?

- Vamos lá ver o que ele anda aprontando.

Encontraram o palhaço caído num canto do palco, com as três garrafas de cachaça na mão, o chapéu tampando quase todo o rosto, deixando à mostra apenas o sorriso torto que ia de orelha a orelha. Dormia um sono de uma tonelada, roncando, assobiando e deixando escorrer pelo canto da boca uma baba gosmenta que já pingava no suspensório mal arranjado.

Colocaram-no em seus ombros. O leão de um lado, a bailarina do outro, o palhaço no meio. E saíram de palco dançando alegremente qualquer uma dessas melodias francesas.

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Redescobrindo Moleque (Vitor Leal Pinheiro)

E o moleque gritou esganiçado:

- Ei, aonde pensam que vão? Não estão esquecendo nada, não?

O Leão e a Bailarina voltaram-se assustados, derrubando o palhaço no chão.

- Mas quem é você?

- Sou o dono disso tudo isso aqui. Do chão de serragem ao teto de lona. Do trailer sem portas à jaula sem grades. Sou dono de cada e de todos... Vocês acharam que iam se mandar sem a apresentação? Onde foi parar o domador? Bah, deixa que eu mesmo domo.

E desceu a arquibancada, e atravessou o picadeiro, e cartola, e chicote, e microfone.

- Respeitável público! - disse, igual aos seus sonhos - Respeitável público! - Mas não havia resposta.

E o moleque pensou e olhou e falou de si para si: aqui quem manda sou eu.

- Respeitável público! - E um burburinho surgiu em meio à escuridão.

E o show começou. E palhaço e bailarina e leão eram jovens e fortes e belos. E eram trapezistas, engolidores de facas, faquires, elefantes que dançam. Equilibristas e equilibrados. Eram até pipoca e maçã do amor.

E para onde se olhava era mágica e música. Era choro de criança e risada de adulto. E as horas passaram e o show terminou. E o menino acordou homem. E o homem lembrou que era menino e que o circo se foi. E o menino acenou para o homem, do último vagão. E lágrimas.

Havia lágrimas.

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()


14.12.04


Aquele
A novidade que eu falei no post do dia 3 de novembro finalmente chegou: Aquele de quem lhe falei. Um e-zine em que alguns escritores virtuais colocarão seus textos mensalmente. O primeiro já saiu. Minha coluna lá é a Entropia, mas dêem uma olhada no resto. Tem coisa boa. Ah, pra entrar é só clicar.

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()


2.12.04


O Método
Era assim todo dia. Acordava e via os sapatos dançando à sua frente. Marrom, preto. Nunca conseguia escolher automaticamente. E isso era só o começo. Depois, tinha que escolher a meia e a calça e a camisa e a gravata. Leite quente ou frio? Café ou chocolate? Era dilema atrás de dilema.
E tinha sido assim desde a vida inteira. Enquanto era novo, não era um grande problema. Para ir para escola tinha o uniforme. E a mãe era daquelas controladoras. Escolhia o corte de cabelo, comprava as meias e cuecas.
Mas foi ficando mais velho e começaram a pressionar. Oquevaiserquandocrescer? Aí, carro, namorada, raça do cachorro. Sabor do sorvete. Já não agüentava mais. Cada refeição era uma decisão. E cada decisão doía pra caramba. Até o McDonald´s tirava o fôlego: número 2 ou 5? Sundae acompanha?
Era um indeciso, vivia um não-viver. Toda escolha implica em perda, e ele era o pior perdedor que conhecia. Chegou mesmo a pensar em suicídio, mas não conseguiu escolher entre cortar os pulsos, tomar remédios ou pular do terraço do sétimo andar.
Foi quando teve a idéia. Ia virar personagem do Maurício de Souza: usar sempre calça preta com camisa verde e comer só melancia. Assim, não precisaria se preocupar com as escolhas nunca mais. Monocromatizou o armário, padronizou respostas. Número 1 por favor. Fritas? Sim. Torta de banana? Sim. Sempre dois sims. Se tivesse mais alguma coisa era não, afinal não era nenhum abastado.
Conheceu uma garota, começaram a namorar. Estava tão craque nas respostas que ela nem percebia o quanto as alternativas atormentavam sua cabeça. Ela só ficava intrigada com a mania dele de dizer sim a qualquer coisa, e não aos maiores absurdos. Vamos ao parque? Sim. Fazer um piquenique? Sim. Vamos de táxi? Não. E tinham que caminhar cinco quilômetros. Tudo para não fugir ao sistema.
Com o tempo, foi ficando paranóico. Nada podia fugir ao simsimnão. E isso só trouxe problemas. Pode trabalhar até tarde? Sim. Posso furar a fila? Sim. Passa o sal? Não.
Apesar das dificuldades, resolveram se casar. (ela resolveu, ele só fez que sim com a cabeça). E os preparativos começaram. Sim para a igreja, sim para o padre, não para as flores. Sim buffet, sim smoking, não aos músicos. E ele batia o pé. Quando era não era não. Ela começou a achá-lo muito teimoso, pensou até que não a amava. Botou ele na parede, e ele confessou: não sabia o que queria da vida. Ela sugeriu terapia. Ele concordou. Com o Dr. Ribeiro. Claro. Duas vezes por semana. De jeito nenhum.
Meses de tratamento e ele começou a sentir-se seguro o suficiente para escolher pequenas coisas, sem utilizar o método. Já estava se acostumando a pequenas decisões. O médico ensinou-o a fazer escolhas aos poucos. Frango? Não. Salmão? Sim. Desde que tudo fosse uma questão dialética, sim ou não, tudo estaria bem.
No jantar de noivado, finalmente conheceu os sogros. Antes de pedir a conta, conseguiu, triunfante se decidir: sim, queria um cafezinho. E o garçom, solicito, indagou: longo, curto ou expresso.

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()