16.11.04
Sobre as horas
Dizem que foi pouco mais de uma semana depois.
Chegou em casa feliz. Ia rever todos, dois anos depois. Tocar em terra, a Terra, mais uma vez. Falava, contava, brincava. Mas durou uma semana. "Radiação cósmica", resmungava o avô "já vi acontecer mais de uma dúzia de vezes". Mas ninguém sabia ao certo.
Antes do começo, não tinha nada. Perdeu o que conhecia num incêndio (a gente só perde coisas importantes em incêndios). Futuro, amor, planos, dinheiro. Não sabia mais nada. Sabia olhar pro céu, mas isso qualquer criança sabia.
Partiu para encontrar. Todo mundo dizia que tinha algo lá, bem bem longe. Ele mesmo não tinha tanta certeza. Foi é para não ficar.
Quando voltou, perguntas, relatórios, amostras. Tinha meses de trabalho pela frente, catalogando e selecionando. Mas parecia não se importar. A verdade, que só os mais próximos perceberam, era que algo tinha mudado naquele olhar. Mudado nele. Ninguém sabia dizer o que, mas que tinha, tinha. Os olhos olhavam. Mas não se sabia o que viam. Ele não comentava. Respondia às perguntas mecanicamente. Depois, alegava cansaço: precisava dormir um pouco, a viagem tinha sido longa.
Boatos, haviam boatos (eram muitos para ficar no singular). Um encontro, furtivo. Uma sexta-feira chuvosa. Ele voltou pra casa, e parou. Não em qualquer lugar. Em frente à tela verde. Disse que lembrava alguma coisa. E foi a última coisa que disse. Zumbi, por semanas. Fazia tique e taque, mas os ponteiros não se mexiam.
Quando, meses depois voltou a marcar as horas, não sabia explicar o que tinha acontecido. Disse que entendia tudo, só não conseguia explicar.
Radiação Cósmica, dizia o avô. Mas a avó, que era quem sabia das coisas, simplesmente dizia: foi demais. Às vezes, é simplesmente demais.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()
3.11.04
Novidades no ar
Alem da minha iminente volta ao Brasil, tem um projeto novo por ai... Mas nao perguntem pra mim. Pergunte pra
ela.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()