28.7.04
Picaretagem
Estou na minha última semana no trampo, correndo pra organizar minha viagem e, portanto, sem tempo. Por isso, seguirei o exemplo da
Renata e vou postar aqui o texto originalmente Anonymus. Assim, quem quiser comenta, quem não quiser não comenta e quem já leu nem precisa perder tempo e ler de novo. De qualquer maneira, tem um outro texto mais ou menos no ar, semana que vem eu coloco.
Bela e só
De parar o trânsito. De fechar o comércio. De tirar o fôlego. Pedaço de mau caminho. Colírio para os olhos. Era como se todos os clichês sobre beleza tivessem sido escritos pensando nela. Sua presença estonteava a todos, por onde quer que passasse. As longas madeixas negras faziam par-perfeito com a brancura leitosa de sua pele. Os olhos, de um azul profundo, brilhavam como se a luz do Sol tivesse sido concentrada em dois pequenos pontos em sua face. Seu desejado corpo era ao mesmo tempo curvo e retilíneo. Por onde andava, cabeças viravam, comentários eram feitos, corações suspiravam. Alvo da cobiça dos homens e da inveja das mulheres.
Como se não bastasse, pecado maior, tinha opiniões próprias. Poderia facilmente ter sido modelo-manequim-atriz mas, sua beleza, ainda que benção, era uma maldição. Sofria por ser vista como objeto e qualquer carreira que visse a beleza como talento não traria o sucesso que procurava. Afinal, ela não tinha feito nada mais do que dar a sorte nos dados genéticos.
Sentia como se durante toda a vida tivesse sido usada. Tanto pelos homens quanto pelas mulheres. Certa vez, ouvira um comentário sobre mulheres bonitas que a deixou profundamente incomodada. Como assim namorar alguém bonito dava trabalho? Como assim o assédio era tal que uma hora alguém a convenceria a trair? Ou trocar? Ouvira também uma piada, sobre mulheres bonitas e melancias, mas essa era vulgar demais para levar em consideração. De qualquer maneira, não conseguia encarar as coisas dessa forma. Acreditava no amor, em se comprometer com uma só pessoa para sempre. Não sabia como era o mundo da perspectiva de alguém que não gostava do que via no espelho. Para ela, ciúme e insegurança eram palavras sem muito sentido.
Sentia que todos os homens que se aproximavam só o faziam para depois poder comentar: tá vendo aquela gata ali? Catei. Houve época em que isso a deixava orgulhosa, envaidecida. Hoje percebia que era algo realmente terrível. Ninguém nunca tinha intenções maiores do que um beijo, uma conquista. Ninguém gostaria de namorá-la por quem era, e sim pelo que aparentava. Sentia-se um troféu: brilhante por fora e vazia por dentro. Desejava ser fácil, para que pensassem que não era assim uma conquista tão grande. Tentou isso por um tempo. Chegou mesmo a abordar rapazes, embora fosse contra essa inversão de papéis. Mas logo percebeu que esse comportamento só aumentava sua solidão.
Mesmo aqueles que estiveram no seu coração, aqueles a quem ela havia deixado entrar, não deixaram nunca de olhar para sua beleza. Nunca procuraram conhecer suas idéias sobre o existencialismo ou a fascinação que tinha por Álvaro de Campos. Nunca se interessaram sobre as coisas de que ela gostava. Nunca olharam para ela. Era refém da própria imagem, cujo brilho ofuscava a pessoa que tinha dentro de si. Se, como dizem, beleza interior é invenção dos feios, para os belos é um ideal inatingível. Ser bonita por fora e por dentro é inaceitável. Injusto, até. Só que o que ela via no espelho era muito diferente do que os outros viam quando a olhavam.
Passou a se esconder. Amizades, preferia as virtuais. Não mostrava sua foto quando pediam: era melhor que a imaginassem feia. Algumas vezes chegara a fazer o contrário da maioria, e mostrara uma foto qualquer, de uma pessoa imbonita. Sentia-se como aqueles príncipes das comédias românticas, que se faziam de plebeus para poder descobrir o verdadeiro amor. Beleza é um pecado inconfessável. Mesmo que todos vejam e comentem, não se pode nunca admitir. Quem admite a própria beleza torna-se fútil aos olhos da sociedade. Ninguém percebe que a beleza é uma prisão em que as visitas sempre têm um interesse malicioso. Fossem as amigas-rêmora que se aproximavam para ficar com as sobras, fossem os meninos que buscavam uma façanha para se gabar com a turma. Vivia cercada de cafajestes e interesseiras.
Mas o que realmente não conseguia compreender era o fato de que muitas pessoas preferiam alguém menos inteligente, menos bonita, menos legal. Como alguém podia desejar alguém menos? Toda a sua vida sempre procurou um homem que fosse incrível, maravilhoso em todos os sentidos. Todos diriam para ela: tirou a sorte grande, hein? E diriam o mesmo a ele. Mas ouvira mais de uma vez que era melhor ter alguém normal, menor, mediano. Medíocre. Na média. Ninguém incrível, ninguém famoso, ninguém competente. Simplesmente uma pessoa comum, dessas que existem às pencas.
Estava desiludida, magoada com o mundo. Temia nunca encontrar alguém que realmente olhasse para ela, e não para seu brilho. Temia continuar a ser o prêmio na estante de cada homem com quem se relacionava. Temia que não confiassem nela. Temia que a máscara que a obrigavam a usar nunca pudesse ser quebrada. Mas seu maior medo, aquele que não confessava a ninguém, era passar a vida sem encontrar alguém que tivesse coragem de amá-la.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()
23.7.04
Mega Liga dos Blogs Amigos
É o último capítulo da série. Espero que vocês apreciem. Para quem não sabe da história, ela começa no
MundoEstranho, continua no
Caneta de Saia e termina aqui no MetrôLinguagem.
Redescobrindo Moleque
E o moleque gritou esganiçado:
- Ei, aonde pensam que vão? Não estão esquecendo nada, não?
O Leão e a Bailarina voltaram-se assustados, derrubando o palhaço no chão.
- Mas quem é você?
- Sou o dono disso tudo isso aqui. Do chão de serragem ao teto de lona. Do trailer sem portas à jaula sem grades. Sou dono de cada e de todos... Vocês acharam que iam se mandar sem a apresentação? Onde foi parar o domador? Bah, deixa que eu mesmo domo.
E desceu a arquibancada, e atravessou o picadeiro, e cartola, e chicote, e microfone.
- Respeitável público! - disse, igual aos seus sonhos - Respeitável público! - Mas não havia resposta.
E o moleque pensou e olhou e falou de si para si: aqui quem manda sou eu.
- Respeitável público! - E um burburinho surgiu em meio à escuridão.
E o show começou. E palhaço e bailarina e leão eram jovens e fortes e belos. E eram trapezistas, engolidores de facas, faquires, elefantes que dançam. Equilibristas e equilibrados. Eram até pipoca e maçã do amor.
E para onde se olhava era mágica e música. Era choro de criança e risada de adulto. E as horas passaram e o show terminou. E o menino acordou homem. E o homem lembrou que era menino e que o circo se foi. E o menino acenou para o homem, do último vagão. E lágrimas.
Havia lágrimas.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
Cadê sua passagem? ()
15.7.04
Bad, bad server. No donut for you
Sinto sua presença. Constante. Crescendo a cada minuto. Seus tentáculos cada vez mais longos. Furtivos. Uma ameaça constante. Poderosa.Tomando o controle sem que se note. Uma luta silenciosa, agridoce. Não há escapatória: em breve, serei mais um zumbi.
Maldito Orkut.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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9.7.04
Super Liga dos Blogs
Eu, a
Renata e o
Carrazzoni, nos juntamos e vamos contar uma história para vocês. E ela já começou, hoje,
aqui. A idéia é que cada um de nós conte a história que quiser, e o próximo continue daí. Os capítulos saem sempre às sextas, não percam!
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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8.7.04
Valsa
- Pri?
- Sim, Má?
- Quantas vezes sonhei com isso. Essa valsa, o casamento... Sei que não costumam mais fazer isso, mas sempre quis uma valsa em meu casamento... E você. Linda, como sempre, olho no olho... apaixonados...
- E eu? Imaginava-me num vestido lindo, guiada por seus passos firmes, seus braços fortes... Flutuando entre seus pés e as nuvens... Nessa noite linda... Céu estrelado.
- É. Quantos amigos eu não via há tempos. E o Padre? Acho que foi o melhor sermão que já ouvi.
- Como se você tivesse ouvido muitos.
- É, é verdade. Não costumo prestar atenção, sempre acabo me distraindo no meio. Mas foi incrível: ele falou para mim. Cada uma, e todas as suas palavras, vindo na minha direção.
- Mas claro que foram para você! Quando a gente casa, o padre fala com a gente. É bem diferente de Missa. Aliás, você estava lindo no altar. Não só lindo. Radiante. Dava para sentir sua alegria. E o nervosismo, a emoção. Chorou, eu vi.
- Claro que sim, você me conhece... Choro em todos os casamentos, não ia chorar no meu?
- Tem razão... Hahaha... Faz parte, né?
- É. Mas não foi só isso. Foi ver que daquele momento em diante, após aquele sim, nada mais seria igual. Poucas vezes em nossa vida percebemos que tudo está mudando. Esse é um deles. E eu estou muito feliz. Sinto como se minha vida estivesse começando agora... Tudo o que vivi até agora foi só um ensaio.
- Sei o que você quer dizer. A sensação é maravilhosa, não?
- É. E esses anos ao seu lado também foram. Cada sorriso. Cada lágrima. Não me arrependo de nada... Claro, errei, erramos, bastante. Mas foi justamente o que tornou nossa relação tão especial. Arrepender-me... não me arrependo.
- Ah, Marcos. Como eu queria ter feito as coisas direito. Tantas discussões sem motivo. Tanto ciúme e controle. Tantas bobagens...
- Não é bem assim. Você sabe que agimos assim simplesmente porque não pudemos agir de outro jeito. Não soubemos. Essas coisas a gente só aprende batendo a cabeça, se magoando. Fico feliz que não tenhamos feito mal demais. Não fosse aquilo, não teríamos chegado a isto.
- ...
- Pri? Quero dizer uma coisa.
- Pode falar...
- Obrigado. Obrigado por me ensinar o que é amor. Obrigado por me ensinar a ser feliz. Por fazer de mim um homem melhor. Por...
- Shhhh... Não precisa dizer, querido. Eu sei. Sinto o mesmo. Você foi assim para mim também. Mudou minha vida, mudou quem eu sou. Você ser feliz é todo o agradecimento de que preciso. Além do mais, o que eu fiz por você e você por mim, não pode ser retribuído.
- É. Você tem razão.
- ...
- E ela... É linda, não?
- É sim. Acho que eu não teria escolhido melhor.
- Mas você escolheu. Escolheu tão bem quanto eu... Pri, eu sempre vou amar você. Acho que o amor é incondicional, mas pessoas não são. Pessoas, eu e você, precisam de coisas, e a única forma que eu e você pudemos ter essas coisas foi assim, separados. Nós dois não podíamos ser.
- Eu sei. Você fez o que pude, eu fiz o que pude. No fim, o que restou foi muito mais do que o que tínhamos antes. Ela é a pessoa que eu não pude ser para você. E tem duas coisas que me deixam realmente feliz hoje.
- Quais?
- A primeira, que você esteja feliz. A segunda, que eu fique feliz por isso. Nós conseguimos. Chegamos ao ponto em que entendemos um ao outro, nos respeitamos, e podemos querer a felicidade sem barreiras. Sem senão.
- Eu amo você, Pri.
- Também te amo, Má. Mas agora é a vez dela. Já te segurei demais. Vai lá. Vai dançar com a mulher da sua vida.
- Já vou. Antes, uma última coisa.
- O quê?
- Seja feliz, amiga.
- Você também, amigo.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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1.7.04
Numismático
Já fazia mais de um mês que costurara o uniforme dourado. Tinha até escolhido um nome que, modéstia à parte, era genial: Numismata. Andava com seu cinto de utilidades repleto de moedas de todos os tamanhos e valores. Seus poderes? Alto poder de avaliação e troco para qualquer valor. Sempre sonhara em singrar pelas ruas em seu Numismóvel (porque um herói não anda, singra) defendendo os fracos e oprimidos. Usava até a cueca sobre a calça: sabia que era a marca de um verdadeiro cavaleiro da justiça.
Mas, meses se passaram e ninguém precisara dele. Usava até um rádio da polícia, mas nunca chegava a tempo nos locais do crime: como ainda não fora contemplado no consórcio tinha que se locomover em ônibus e lotações. Além disso, ainda tinha que suportar as gozações dos outros passageiros, sempre grudando chicletes em sua capa e tirando sarro do collant.
Lembrava com nostalgia dos tempos de homem comum, quando o simples gesto de ceder o lugar para um idoso no ônibus ou ajudar um cego a atravessar a rua eram suficientes. Agora não. Era um herói de carteirinha e precisava de grandes feitos. Impedir o colapso de represas, desarmar bombas atômicas, desviar asteróides em rota de colisão com a Terra.
Aos poucos foi conseguindo uns bicos aqui e ali. Basicamente furadores de fila e jogadores de papel de bala pela janela do ônibus. Mas era pouco para um herói da sua estatura.
Mais ou menos nessa época, surgiu um criminoso que começou a aterrorizar a cidade. Cortava a energia do metrô, parava carros em fila dupla nos horários de pico e incitava rebeliões nos presídios. Caos era seu nome usava uma roupa preta com uma brilhante máscara prateada. Diziam que ele não possuía rosto. Era tudo o que Numismata precisava: um arquiinimigo. Um herói só é tão grande quanto seu adversário.
As terríveis disputas entre Numismata e Caos rapidamente ganharam as páginas dos diários e blocos especiais na televisão. O Globo Repórter fez até uma edição especial com os feitos e desfeitos da dupla. Legiões de adolescentes faziam fila para disputar a vaga de fiel escudeiro do bem. Enquanto isso, o Justiceiro fazia salvamentos dramáticos, sempre impedindo as catástrofes no último momento.
Boatos começaram a surgir: estranhamente, herói e vilão nunca se encontravam. A imprensa marrom publicou um dossiê, acusando o grande defensor da justiça de ser uma farsa. Um charlatão. Dizia-se que ele recebia dicas dos crimes cometidos por Caos. Mas no fim, tiveram de se retratar por falta de provas.
Com o tempo, mesmo seus desafetos tiveram de silenciar. Os salvamentos eram cada vez mais vultosos e o paladino da justiça foi condecorado pelo Comissário de Polícia e pelo Presidente. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Sorbonne e foi indicado para o Nobel da Paz.
As grandes obras continuaram, até o dia em que, por um engano totalmente perdoável devido à sua estressante rotina, o herói foi filmado salvando inocentes de um prédio em chamas envergando o uniforme dourado, mas tendo ainda no rosto a terrível máscara prateada.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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