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As Intermitências da Morte

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O Encontro Marcado
Sapato Florido
Crônica da Casa Assassinada

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24.6.04


Finalmente
Pessoal, o Anonymus acaba de publicar meu primeiro texto. Vão lá, dêem uma olhada. Prestigiem. Ah. E podem comentar aqui, já que lá não tem ainda comentários para cada texto.

Pergunta que não quer calar: são todos pseudônimos, então qual dos textos fui eu quem escreveu?

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()


23.6.04


Serendipity
Já passara das duas da manhã, e eu lá, sem conseguir dormir. Tinha ido cedo para a cama naquele dia, mas acordara pouco depois da meia-noite. Desde então, só rolava na cama, enrolando-me nos lençóis da maneira que só os insones conhecem. Foi quando ouvi um som vindo lá de baixo. Sempre tive medo desses barulhos noturnos. São os móveis encolhendo com o frio, costumava dizer minha mãe. Permaneci ali, deitado, de olhos bem abertos, esperando que algo acontecesse. Nada. Silêncio. Tenso, esperei alguns minutos mais. Bons e longos minutos. Acabei por criar coragem - sabia que não pegaria no sono até descobrir a origem do barulho. Saí da cama e, sorrateiramente, fui andando na direção das escadas. Quando já estava nos últimos degraus, percebi um tênue facho de luz saindo por baixo da porta da biblioteca. Pé ante pé, aproximei-me da porta. Mas, como sempre acontece quando queremos ser silenciosos, meu joelho deu um estalo surdo, daqueles que reverberam por todo o ambiente. E a luz se apagou.
Abri a porta com todo o cuidado. Já imaginava um ladrão, e tentava encontrar algo para me defender. Entrei. Liguei o interruptor, mas não havia nada lá. Ou melhor, ninguém. Comecei a considerar a possibilidade de estar no limbo entre o dormir e o despertar - quando pequeno fui um sonâmbulo contumaz, e já tinha uma certa experiência no assunto. Olhei em volta uma vez mais e decidi: era fruto da minha imaginação. Meu coração ainda palpitava de ansiedade, e eu podia ouvir cada uma das batidas com uma clareza impressionante. Mas havia algo de estranho. Um eco. Como se minha cabeça estivesse vazia, e cada som que saía do meu corpo tivesse uma segunda voz. Sentei-me na familiar poltrona, de livros e cochilos, para recuperar o fôlego. Havia algo de muito estranho naquela noite. Foi então que vi. Num canto, atrás de uma pilha de cadernos antigos. Vi a mim. Eu mesmo, sentado, encolhido. Caderno na mão, lápis na outra.
Finalmente, entendi. Após anos e anos de procura, finalmente havia me encontrado. Ou melhor, havia me surpreendido. Me surpreendi escrevendo, escondido. Encontrei-me num cantinho escuro da minha própria biblioteca. Não planejei tal encontro. Não procurei tal ofício. Na verdade, fugi. Fugi daquela coisa de escrever. Mas não adiantou. O destino conspirara e não havia para onde ir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Simplesmente era assim, e o melhor era aceitar logo e continuar com a vida. Resignar-me.
Escrever eu não escolhi. Escrever me escolheu. Descobri-me, nas penumbras do inconsciente, um escrevinhador. Escritor não digo. Escritor é alguém que vive de escrever. E posso viver de outra coisa, mas quero viver para isso.

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21.6.04


Anonymus - Ilustres Desconhecidos
Iniciativa de alguns amantes da palavra escrita, este que vos fala incluído, o Anonymus é um ponto de encontro para aqueles que gostam de escrever, mas não têm onde. Os primeiros 5 textos já estão online. Em breve o meu também estará lá. Acessem, leiam, comentem.

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17.6.04


Big-Bang
Era um Elétron igual aos outros. Vivia tranqüilo em sua órbita ao redor do solitário Próton e, exceto por um ou outro Fóton que vinha importuná-lo, nada o incomodava. Mas nada na vida é certo, nem mesmo a morte. Eis que ele se depara, num belo dia, com um Pósitron. O arquétipo da sua cara-metade. Ou melhor, sua antipartícula. E foi como se uma imensa carga de energia o tivesse impulsionado, livre, para fora da rígida órbita nuclear. Seu coração palpitava, suas mãos suavam (sim, elétrons têm mãos, mas elas são muito pequeninas), e seu rosto corava. Imaginar sua vida ao lado de tal beleza natural era um sentimento por demais esmagador - e por demais agradável.
Mas, como todo elétron que freqüentara a escola, sabia que era um amor impossível. Platônico em todas as suas acepções. Um simples toque entre ambas partículas de antimatéria resultaria numa explosão devastadora, que levaria ele e sua amada à destruição. Entre eles, não haveria nunca nós.
Quem ama, no entanto, busca. E, disposto a desafiar o destino, procurou uma forma de resolver seu dilema. Entre seus iguais, ninguém sabia de uma maneira segura de consumar tal união. Avisaram-no, inclusive, sobre os perigos de perseguir tal empreitada. Soube, de ouvir falar, que certa vez, há muitos e muitos e muitos e muitos e muitos bilhões de anos, um caso parecido ocorrera. E que a destruição fora tamanha que um universo inteiro se extinguira e as micro-partículas desse caso de amor primordial se espalharam por todo o Cosmos.
E assim ele entendeu. Procurou, dentro de si, a coragem necessária. Num gesto impetuoso, atirou-se contra sua anti-cara, e encontrou o fim e o início. E deles surgiu uma energia que foi vista por milhões de anos-luz, mas que durou apenas um milésimo de centésimo de segundo. E no instante seguinte não havia mais nada. E depois havia um novo tudo. E isso que hoje chamamos de Universo nada mais é do que o Nós desse amor infinito.

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14.6.04


Sobre beijos e livros
Não dá para reler um livro assim como é impossível beijar pela primeira vez novamente. Quando que você acaba a leitura, o livro também termina. Um livro, por maior que ele seja, tem a duração de uma única leitura. E nada mais. Depois disso, é como ver fotos de uma viagem: a gente sente uma nostalgia, mas não a mesma emoção. Claro, não digo que você não vá descobrir novas maravilhas. Quanto melhor o livro, maior a chance de encontrar coisas diferentes e surpreendentes. Assim como beijar alguém mais de uma vez pode trazer emoções novas, sentimentos diversos. A técnica se apura, o relacionamento se estreita e você acaba arriscando mais, experimentando mais. Mas a verdade é que, por mais que tente, você nunca sentirá aquilo novamente. Como dizia a viciada em heroína de Invasões Bárbaras, preste atenção na primeira vez, pois é a ela que tentamos sempre retornar. Mas nunca voltaremos.
Talvez seja um desdobramento das idéias de Heráclito - o de Éfeso. Tudo muda. Não dá para atravessar o mesmo livro duas vezes. A gente muda, e o livro ainda mais.
Livros, embora muitos acreditem que sejam imutáveis, não o são. Livros não são estáticos, e estão sempre mudando. Se você for a uma biblioteca grande o suficiente, e fizer bastante silêncio, ouvirá as palavras se mexendo, as letras escalando parágrafos e mudando de posição. Pequenas e sutis trocas de sílabas. Coisa que passa despercebida pela maioria das pessoas. Mas elas sempre mudam. Por isso, as bibliotecárias sempre pedem que fiquemos quietos lá dentro. Não é para não atrapalhar quem quer que esteja lendo. É para não incomodar os livros. Eles precisam de calma e silêncio para continuar seu trabalho interminável. Com um pouco de sorte, dá até para ver, mesmo que de soslaio, uma letra se mexendo furtivamente, procurando um novo lugar para ficar. Não digo que seja fácil. A maioria delas faz isso há séculos e está mais do que treinada. Mas é possível, com uma certa dose de paciência e dedicação. Na verdade, até mesmo a Bíblia muda.

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9.6.04


Sempre preferi uma única rosa a um buquê repleto delas
Quando recebe um buquê de rosas vermelhas, você vê o resultado de todas elas juntas, não olha para a flor, mas para o conjunto delas. Vê um aglomerado de pétalas, centenas delas. Mas quando você ganha uma rosa, uma única e solitária flor, você vê a beleza singular que ela possui. Percebe os detalhes, odores. Vê cada pétala como se fosse única e exclusiva. Aquela flor nasceu para chegar às suas mãos. Aquele botão é seu e de mais ninguém. É como se ela concentrasse todo o carinho do ato, todo o amor em uma flor perfeita. Ninguém perde tempo escolhendo cada uma das flores de um buquê. Mas se você for presentear alguém com uma rosa, ficará um tempão escolhendo a mais bela e perfeita delas. É isso, sempre preferi uma rosa a um buquê.

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Ortografias
Quem não tem na cabeça uma palavra que, sempre que pronunciada, parece estar errada? Aquela impressão de que a maneira certa é Rúbrica, Substântivo, Célebro, Losângulo, adevogado. Algumas palavras simplesmente deveriam ser escritas de outra maneira. Não sei bem o motivo disso, mas todos temos um sentimento especial por algumas palavras, uma estranheza, como se alguém tivesse se enganado na hora de distribuir as letras e sílabas tônicas. Talvez resida aí a razão pela qual tanta gente escreve quizer ao invés de quiser. Antes do advento do corretor automático do Word, que também não é lá muito confiável, devia ser tortura chinesa para os professores ler trabalhos dos alunos. Assim como é ler alguns blogs que estão por aí, à deriva na internet.
Mas ortografia às vezes atrapalha, incomoda, não nos deixa dizer as coisas com a devida sonoridade. Não permite que enchamos a boca com a palavra e façamos um gargarejo, antes de cuspí-la na conversa. Hmmm, essa palavra tem um gosto amadeirado, com um toque de maçã. É suave, porém safada.

E quem nunca sentiu um prazer todo especial em dizer rúbrica? Uma delícia. Substântivo! E tem também aquelas palavras cativas, que se pudéssemos incluiríamos em todas as conversas. Intrínseco. Falácia. E em outras línguas, conundrum (essa é minha preferida absoluta em inglês), popular (com sotaque estadunidense). E expressões. A mi me encanta. Poesia pura.
Rubem Alves disse, na Folha de domingo, que toda leitura tem seu ritmo. E eu sempre senti isso. Tem coisas que simplesmente devem ser ditas de uma certa maneira, ou perdem sentido. Seja pela aliteração, pela pontuação, ler bem significa captar o ritmo certo. Mas as palavras também tem música própria, e quando prestamos atenção, podemos encontrar belíssimas sinfonias. É como se cada letra fosse uma nota; cada sílaba um acorde. Sendo assim, podemos ter más combinações de acorde e tempos errados. Essa característica das palavras explica ao mesmo tempo más construções frasais e as palavras que intuímos estarem escritas de forma equivocada. Elas devem estar em outro tipo de escala musical. Talvez aquela oriental, baseada não em 7, mas em 12 notas.

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7.6.04


Visitando Macondo
Tem uma coisa que sempre me incomodou: não dá pra ler todos os livros, assistir a todos os filmes, visitar todos os lugares do mundo. Sempre me senti meio frustrado com isso. Como escrevi anteriormente: "A vida é curta, os livros muitos". Essa é uma preocupação recorrente, e sempre que vou pegar um novo livro para ler, imagino se valerá a pena. Penso se estou pronto para ele, ele para mim. Imagino se não poderia estar lendo outra coisa mais interessante. Quando começamos a ler um livro, nunca sabemos se pode ser uma viagem perdida. Então, na eterna dúvida do que ler em seguida reside outra, ainda mais problemática: devemos reler um bom livro?
Existem livros que nos marcam muito. Ainda assim, o tempo passa, e detalhes importantes se perdem nos recônditos da nossa memória. Ou talvez sintamos saudades daquele mundo que, certa vez, visitamos. Pare e pense por um minuto num livro que marcou você. O que foi que marcou? Os milucos do Dia do Curinga? Os ciganos de Macondo? Os canhões floridos do Menino do Dedo Verde? Ou a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Pois é. Dá uma saudade... E nessas horas o dilema é terrível. Por um lado, já sabemos que o livro será bom. Por outro, é tempo precioso, em que poderíamos estar conhecendo um novo mundo. Reler ou não reler? Ah, como eu gostaria visitar Macondo, acenar para os Buendía. Sentar no barco, ao lado de Deus, Jesus e o Diabo para ouvir a conversa imaginada por Saramago. Enlouquecer com Tyler Durdeen nos porões do Clube da Luta.
Não tenho a certeza, mas a impressão de que velhos amigos merecem uma visita ocasional.

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