31.5.04
Experiência Enriquecedora
Quem me conhece sabe que sou muitas coisas, menos místico. Acredito em Ciência e Filosofia. No autoconhecimento, mas não na auto-ajuda. Sempre olhei com muita desconfiança qualquer coisa que tivesse no nome as palavras cura, amor, segredos, felicidade, crescimento e motivação, ou qualquer combinação entre elas. Qualquer pessoa que comece a falar de experiências transformadoras já perde muitos pontos comigo. Certa vez, uma tia, minha que lê bastante e me conhece bem, presenteou-me no Natal com um livro. O título?
Felicidade. Esbocei um sorriso sem graça, mas ela logo afirmou: não é auto-ajuda. Respirei aliviado e fiquei contente ao descobrir que era um debate filosófico (muito bom, por sinal) sobre a felicidade.
Voltando ao assunto, sempre tive uma certa reserva com assuntos auto-ajudísticos. Em contrapartida, tento respeitar o que os outros acham a esse respeito. Cada um acredita naquilo que lhe convém. Alguns livros, inclusive, são erroneamente catalogados dessa forma, e às vezes temos boas surpresas como o, já citado, Felicidade e O Ócio Criativo.
Mas vamos à história. Conversei com minha mãe, psicóloga, sobre fazer terapia. Ela disse que uma colega havia falado de uma psicoterapia chamada "Constelações Familiares". Desconfiei mas, como minha mãe me conhece e partilha muitas das minhas convicções a esse respeito, dei um voto de confiança. Nas palavras da colega, era "transformador". Meu radar captou algo estranho, mas resolvi ignorar.
Para não ir sozinho, convidei uma amiga. Fomos, os dois, numa quinta à noite. A Palestra, de duas horas, seria ministrada numa livraria. Chegamos lá e já achei muito estranho o ambiente: livros de auto-ajuda, incenso, misticismo em geral. Mas até que tinha alguns presentes legais. Sentamos numa pequena sala e logo entraram as palestrantes. Uma delas tinha um enfeite na testa, que lembrava um terceiro olho. Mas tudo bem. Pode ser um resquício da novela O Clone.
A explanação começou e tudo corria bem. Falou-se de psicoterapia, de estudos, de como um fato acontecido na família, como um tio suicida ou uma morte prematura podia afetar cada um dos membros da família, criando
nós ou
emaranhamentos. Faz sentido. A presença constante da memória desse fato realmente deve criar problemas para todos os membros. Mas quando ela falou que isso podia ir até a 7ª geração de ascendentes, senti que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Acabou a parte discursiva, começou a demonstração do método. Uma pessoa da platéia se ofereceu para falar de seu problema e achei que se trataria de uma espécie de terapia de grupo aliada ao psicodrama. Técnicas conhecidas e difundidas. Virei para minha amiga e disse: a gente nunca sabe, vai que funciona mesmo...
A mulher contou sobre o problema com seu filho que era incontrolável. Na verdade, foi praticamente só o que ela disse. A "facilitadora" (até arrepia ouvir um termo desses) pediu que ela escolhesse duas pessoas entre os presentes para representá-la e ao filho. Claro, Murphy sorriu e disse: vocês. E eu e minha companheira de aventuras nos levantamos e ficamos frente a frente, ela a mãe, eu o filho. Pensei "taí uma boa chance de tirar a prova, se eu sentir alguma coisa...". A facilitadora olhou para nós e disse que fizéssemos o que quiséssemos. Que deixássemos nossos corpos à vontade e simplesmente sentíssemos a energia. Ficava cada vez mais difícil não rir. Enquanto isso ela fazia algumas perguntas para a voluntária. Eu e minha amiga controlávamos o riso, e nem podíamos nos olhar nos olhos. Vocês estão sentindo alguma coisa? Não. Nada? Não. Estão confortáveis. Eu estou. Ah... Tudo bem. Dez minutos e nem nos mexíamos. Nada acontecia. "Vocês gostariam de se sentar? Às vezes as pessoas não estão
prontas e receptivas para a situação. Não tem problema." Sentamo-nos. Uma senhora e um jovem foram escolhidos. O que você está sentindo, mãe? "Uma dor (choramingando) horrível aqui, como se fosse um nó na garganta". E você, filho? "Estou tremendo, tremendo inteiro, sinto um bloqueio, não sei, não quero fazer nada". A pseudomãe chorava aos cântaros. E mais pessoas foram sendo chamadas, para representar outros familiares, como o pai, avós, etc. Rapidamente metade dos presentes estava de pé e "sentindo" a energia daquela família. Eu imaginava como alguém podia acreditar naquilo. Pensei em golpe, charlatanismo, pegadinha do Faustão. Não me conformava com aqueles adultos chorando e dizendo coisas como "eu gosto muito dela","sinto uma raiva muito grande dele". Imaginei se tratava-se de participantes do golpe, estrategicamente estavam escondidas na platéia, prontos para nos enganar. Mas quando só sobrou eu e minha amiga, achei altamente improvável que tanta gente estivesse metida nisso. Fui obrigado a aceitar que as pessoas fazem as coisas mais estranhas quando estão em desespero.
I´ll do anything once, disse para a colega de palestra. Ela limitou-se a conter o riso. Mal sabíamos que o melhor estava por vir. A facilitadora era uma japonesa de fala mansa, quase irritante. Não tinha entonação nenhuma na voz, seu discurso era plano. Quando acabou a demonstração, três pessoas relataram sentir dor na cabeça, uma pressão nas têmporas. A nipo-brasileira (deixa pra lá, não vou ser politicamente correto), a japonesa virou para elas e disse: "se vocês chegarem em casa e ainda estiverem sentindo isso, façam o seguinte (tomem um tylenol, eu comentei com meus botões): pensem na pessoa e peçam que ela receba a energia de volta. Ou melhor, façam o seguinte, venham aqui na frente."
Ela formou um círculo com as três mulheres e disse: "Apóiem os pés no chão, abram o ânus e a vagina (sim, ela disse isso), e respirem fundo três vezes. Isso. Agora eu quero que vocês façam o Rá! (!). Pulem e gritem Rá!, mas ele tem que sair lá de dentro." E nisso, a japa deu um grito totalmente inesperado. Bizarro, no mínimo. Funcionou mesmo!, disse a mãe chorona.
E eu não via a hora de ir embora e tirar sarro daquela situação esdrúxula. Finalmente fomos liberados e corremos como loucos para o carro onde, a salvo daquele manicômio, pudemos finalmente rir sem medo de sermos taxados de fariseus. Resumo da noite: acho que talvez estejamos precisando de um pouco mais de espiritualidade em nossas vidas. Mas não tanto.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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25.5.04
Para comer de colher
Acho que os visitantes merecem uma explicação minha. Afinal, sou indicado no Blogs of Note e desapareço... É o seguinte: passei a última semana fazendo uma lavagem cerebral. Senti que estava precisando, sabe? Tava cheio de idéias antigas, memória fora de lugar... É mais ou menos como fazer a desfragmentação de disco, só que mais chato (não tem aqueles quadradinhos coloridos pulando de um lugar pro outro). E vocês não têm idéia de como aquelas dobrinhas encefálicas acumulam sujeira...
Enfim, faz um tempo que eu quero dar algum sentido à seção
Livros, então resolvi falar um pouco sobre alguns dos que estão aí. Mesmo porque vou substituí-los em breve. Vamos lá:
Dom Casmurro.Só existe um comentário pertinente: Machado de Assis. Tá, vou elaborar... Afinal, e vamos para um lugar comum, Capitu traiu ou não traiu? Sinceramente eu não tive dúvidas de que sim. Mas talvez não. Não há provas. O mais incrível é a capacidade do Machado de plantar a sementinha na nossa cabeça durante o livro, sem que nem percebamos. Nós mesmos estamos acusando quando menos esperamos. Mas não há prova da traição. Não há corpo nem arma do crime. Então não há crime. Putz, até eu fiquei confuso.
O Ócio Criativo. Podem até dizer que é utopia. Mas acho que é no mínimo um sonho muito bom, algo pelo que lutar. Claro, modificar a sociedade a esse ponto é muito complicado, mas o exemplo dos trabalhadores que comem banana, é muito sugestivo. Afinal, em que tipo de sociedade vivemos ainda? E ócio criativo não tem nada a ver com ficar na cama dormindo. Tem a ver com juntar a diversão, o trabalho e o aprendizado numa coisa só. Produzir sempre, e se divertir sempre. Show de bola.
E, atendendo ao pedido de uma amiga, um dos primeiros livros que me marcou. Não digo o primeiro, porque faz muito tempo, mas um dos:
Cem Anos de Solidão. Gabriel Garcia Márquez marcou minha infância com sua literatura fantástica. A imagem do Velho Buendía no quartinho dos fundos, fazendo alquimia. O primeiro encontro do povo de Macondo com o gelo trazido pelos ciganos. É incrível a forma como esse prêmio Nobel descreve a vida de uma família numa cidadezinha qualquer, mas de uma forma brilhante, cheia de fantasia, mas impregnada de realidade. Lembro-me bem de ficar pasmo ao ver que todos os filhos tinham o mesmo nome, e as mesmas características. Exceto os gêmeos. Mas eles devem ter sido trocados quando pequenos. Dá uma vontade de passear por Macondo novamente...
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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17.5.04
Última
Passei os últimos anos procurando a próxima. A próxima garota por quem me apaixonar, a próxima a quem beijar, a próxima a dividir minha cama, meus sonhos. Essa busca acabou. Não procuro mais a próxima. Não existem mais primeiras, segundas, vigésimas. Procuro a última. A última mulher a quem me entregarei. E não me importará quantos ou quem ela já teve ao seu lado. Importará apenas que eu serei o último. E últimos seremos os dois.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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13.5.04
Flamingos
-Tchau.
Foi a última palavra que saiu da sua boca. Ela se dirigiu ao caixa pagou a conta e saiu. Eu fiquei ali, parado, embasbacado. Era daquelas mulheres que o melhor é que não falem. Porque ao abrir a boca, caímos de joelhos aos seus pés. Linda e inteligente. Combinação difícil de superar.
Olhei mais uma vez para seu telefone, recém-anotado no meu celular, e imaginei como seriam nossos filhos. Provavelmente morenos de olhos azuis. Mas quem sabe? Podia nascer uma bela loirinha como a mãe.
Enquanto esperava o manobrista trazer o carro, ela fazia cachos, enrolando as longas madeixas com o dedo. Pequenas coisas. É disso que são feitas as vida em casal.
Procurei me conter, voltei para mesa. Meus amigos perguntavam, questionavam sobre a investida. Tinha ficado quase quarenta minutos conversando com ela, e nenhum beijo. Levou um fora, perguntou um deles. Não, encontrei o amor da minha vida. Exibi, orgulhoso, o número marcado em meu telefone. A noite foi perfeita, melhor ir embora antes que estrague, pensei. Levantei-me e, como tinha bebido algumas cervejas, fui ao banheiro antes de pagar a conta. Não conseguia parar de pensar nela. Apertei a descarga e vi, em câmera lenta, close-up, e todos os recursos cinematográficos possíveis, meu celular pular do bolso da jaqueta e mergulhar no redemoinho, afogando meu sonho de uma vida maravilhosa.
Congelei.
Na louça branca, sequer vestígio do meu celular. Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado minutos sem conta. Até que despertei do transe e fui, desolado, lavar as mãos. Molhei o rosto. Vi o seu no espelho. Dessa vez, ao lado de outro homem, segurando nossos filhos no colo, passeando com nosso cachorro. Como era possível? Eu tivera a felicidade em minhas mãos, e agora ela se fora com um som horrível. Por sinal, se a felicidade de alguém acaba, esse é o som exato que deve ter: o de uma descarga mal-regulada. Voltei para casa e mal consegui fechar os olhos. Por muito tempo ainda procurei suas feições em cada loira que caminhava na rua, cada carro que parava ao meu lado no farol. Na verdade, procurava também nas morenas e ruivas, em ônibus e metrôs. Mas os anos foram passando e nunca mais a vi.
Eis que fui, certa noite, comprar bebidas e petiscos para alguns amigos que vinham me visitar. O penúltimo solteiro da turma da faculdade já estava casado havia dois anos. Só restava eu. E minha namorada fazia questão de repetir isso a cada chance possível.
Então, estava eu na fila do supermercado, esperando a vez de pagar, quando a vejo passar ante meus olhos. Não havia envelhecido sequer um dia. Se era possível, estava ainda mais bonita. Meu coração parou, e vi uma casa com um belo jardim e uma amoreira. E flamingos. Não me perguntem por que, mas achei que ela era do tipo que gostava de flamingos.
Seus olhos encontraram os meus e eu soube o que precisava fazer. Saí da fila e fui ao seu encontro. Cumprimentei-a e expliquei porque nunca liguei para ela. Desconfiada a princípio, ela acabou aceitando minhas desculpas. Conversamos por um tempo e soube que ela acabara de voltar de viagem. Tinha conhecido a Tailândia e estava solteira. Mais uma vez anotei seu telefone, dessa vez num pedaço de papel.
Terminei minhas compras e fui para casa. No caminho, pensamentos conflitantes poluíam minha cabeça. Entrei no apartamento e todos já estavam à minha espera. Inventei uma justificativa qualquer para o atraso. Desculpei-me e fui ao banheiro do meu quarto. Precisava lavar o rosto. Minha namorada entrou e quis saber por que eu parecia tão assustado. Dei a descarga e olhei para ela. Respirei fundo, e disse:
- Lúcia, meu amor, casa comigo? Você é o amor da minha vida, e eu não consigo imaginar viver sem você ao meu lado.
Enquanto nos beijávamos felizes, aquele número de telefone descia pela privada uma vez mais. Não estava disposto a trocar a mulher da minha vida por flamingos.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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10.5.04
O prazer nosso de cada dia
Amor, felicidade, sofrimento. Tudo isso tem sido tema freqüente em minhas conversas, em meus pensamentos. E uma das conclusões às quais cheguei é que o dia em que crescemos é o dia em que deixamos de ser hedonistas.
Somos todos hedonistas quando nascemos. O hedonismo guia nossa existência, seja quando estamos à procura de sexo, comida, paixão - amorosa ou não - ou qualquer outro prazer dito da carne. Esse é um mecanismo biológico que nos mantém vivos. Li que se não tivéssemos prazer em comer ou nos reproduzir poderíamos nos esquecer disso, e nossa espécie seria extinta rapidamente. Mas o dia em que crescemos, e mais, em que descobrimos a felicidade verdadeira, é o dia em que paramos de deixar nosso lado hedonista nos controlar. O dia em que reconhecemos que temos anseios animais e percebemos que podemos perder coisas muito valiosas ao dar vazão a eles. Sem rodeios: o dia em que aprendemos a não ser tão egoístas e a nos controlar para não machucar a quem amamos. O desejo faz parte do homem, e quanto a isso não podemos fazer nada. Mas o homem é mais do que um animal e pode controlar seus desejos. Superego é a palavra-chave. O problema é que também não dá pra ficar simplesmente reprimindo esses desejos. Se for assim, uma hora não resistiremos. Fico, então, imaginando a melhor saída para esse dilema. Reconhecer que somos humanos, demasiado humanos, como diria Nietzsche, é um grande passo. Então, quando encontramo-nos, literalmente, face a face com a tentação, o hedonismo clamando a posse de nossas ações, como agir? Aceitar que podemos querer algo que não devemos. Entender que tudo podemos, mas nem tudo devemos. Controlar esse desejo e afastar-se.
Fugir! Não há nada de errado em escapar fisicamente a um desejo. O problema da tentação é que cedo ou tarde ela nos convence. Como disse Oscar Wilde, resisto a tudo, menos à tentação. Mas se nos rendermos à ela, acabaremos atormentados por nossa consciência, pela culpa, e ainda correremos o risco de perder aquilo que amamos. E o dia seguinte? A ressaca moral de ter feito algo realmente errado?
O ideal seria nos armarmos para uma situação dessas. Porque sempre sentiremos desejo, e isso não tem nada a ver com a pessoa que gostamos, não é falta de amor, de tesão, de paixão. É simplesmente uma condição humana. Então deveríamos nos preparar psicológicamente para esses momentos. Controlemos melhor nossas ações, cerquemo-nos de amigos que querem nosso bem, que não ficarão nos colocando em situações difíceis e que, mais que isso, nos aconselharão a fazer o certo. Amigos que nem sempre irão dizer o que queremos ouvir. Afinal, como eu disse, mais hora, menos hora, nos convencemos a ceder. E se chegarmos ao ponto do "Melhor não...", talvez tenhamos ido longe demais. E, nessa hora, um amigo pode fazer toda a diferença. Um amigo que nos faça refletir, pode impedir que nos precipitemos no erro. Assim como um amigo que não vê nada de errado pode nos dar o empurrãozinho de que precisamos para fazer algo de que vamos nos arrepender.
Mas existe outra questão. Não podemos simplesmente dizer que não queremos algo que não conhecemos. Para escolher bem, precisamos escolher mal. Escolher errado, para depois descobrir que não queremos mais escolher errado. Se não sabemos o valor de uma coisa, o que ela representa para nós, se não sabemos a que estamos renunciando, não podemos honestamente dizer que não a queremos mais. Desistir de uma coisa por outra coisa significa entender que precisamos mais de uma coisa do que de outra. Mas se não conhecemos completamente uma das coisas, como podemos decidir isso?
E só podemos entender completamente essa escolha, essa renúncia à busca rápida do prazer, quando encontramos um amor verdadeiro. Não porque ele nos impede de pensar em outras pessoas. Na verdade, estando muito bem com a pessoa que amamos podemos sentir a vontade de algo mais, ao passo que estando numa crise difícil, é possível que não tenhamos essa ânsia. Mas porque descobrimos que a felicidade é muito mais do que um prazer atrás do outro. Que a felicidade não é sentir mais prazer do que dor. Para ser sincero, a felicidade através do amor - de homem para mulher, de pai para filho - traz uma grande quantidade de dor também. Mas isso tem uma importância menor porque, uma vez que você ama, as coisas são simplesmente diferentes. Quando a dor dá um descanso para seu coração, você sentirá uma felicidade estranha, diferente. Isso é amor. Amor é algo que, no fundo, pode ser independente do ser amado. Mesmo sem essa pessoa que balança nosso coração, a gente simplesmente é feliz. Sei que parece estranho, mas é verdade. O que traz dor é a angústia, a decepção, o medo, a saudade. Quando isso some do horizonte, um sentimento bom transparece. E acho que uma vez que você começa a amar, simplesmente não consegue deixar de.
Cheguei à conclusão de que paixões não valem o sacrifício de nossa paz, de um amor. E quando aprendemos isso, estamos aptos a adiar o prazer, algo que buscamos a vida inteira. Você dá uma bala para a criança e diz: se você não chupar essa bala até o fim da semana, eu te dou 10 balas iguais. Ou se você trocar prazeres fugazes por um amor verdadeiro e sincero, viverá uma vida com mais paz interior e felicidade.
Também descobri que podemos nos apaixonar continuamente pela mesma pessoa. E aí entendi porque os mais experientes dizem que um relacionamento dá trabalho, mas que é fácil quando é a pessoa certa. Um relacionamento dá trabalho porque você precisa se esforçar para mantê-lo funcionando bem, para continuar se apaixonando todos os dias, mas é fácil porque esse esforço é prazeroso.
Divago, eu sei. Mas é preciso.
Enfim, quem vive de calafrios talvez não descubra o que é ser feliz no amor. Procurar apenas o prazer, muitas e muitas vezes. Isso não tem fim. E amar é um fim em si só. Não quero mais ser um hedonista. E tenho a impressão de que ser feliz é acordar de manhã e ser capaz de encontrar algo para sorrir.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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5.5.04
O divórcio de Romeu e Julieta
Li um texto, certa vez, que dizia que o único romantismo verdadeiro era fazer um sacrifício pelo ser amado sem que ele viesse a saber. Também dizia que isso era uma das coisas mais tristes desse gesto, pois uma vez anunciado, perdia o valor. Estive pensando em relacionamentos ultimamente, tentando entender o que deu errado no meu. E cheguei à conclusão de que esse tipo de sacrifício não é romantismo. Isso é fadar o relacionamento ao fracasso. Ninguém faz nada de graça. E ninguém tem culpa disso. Todos os atos que realizamos são, sim, egoístas. Se procuramos agradar quem amamos é porque o amor nos faz agir dessa forma. Porque isso nos faz felizes. Mas eventualmente vamos cobrar um preço por nossas renúncias.
Não que não devamos nos sacrificar pela pessoa amada. Pequenos sacrifícios são parte do amor. Mas eles devem vir dos dois lados. E mais, não devem significar a morte de um lado que nos é essencial. Na hora de uma crise, é claro que faremos o que é preciso. Sacrificaríamos tudo o que temos para estar com a pessoa que amamos. Mas, sinceramente, qual é a coisa mais importante na sua vida? Para mim, e descobri isso com o fim do meu namoro, é escrever. E se eu tivesse que desistir de escrever para estar com a pessoa que amo, acabando com toda a dor e sofrimento que eu e ela temos sentido, eu o faria. Faria porque amo, porque sinto dor e sofrimento. Mas um dia, eu me colocaria diante dessa escolha novamente. E, francamente, não sei se posso viver sem escrever. Não há nada pior do que ser escolhido e depois desescolhido. Nunca devemos cobrar um preço tão alto de alguém, porque esse é o preço do fim. E quando você perceber, poderá ser tarde demais.
Sacrifícios extremos por amor só funcionam nos livros ou filmes, mas eles nunca mostram o fim. Romeu e Julieta. Poderiam eles ser felizes se Romeu tivesse sabido do estratagema do falso veneno? Um dia, muitos anos depois, longe de casa, os dois teriam saudades de seus pais, de seus amigos, de suas vidas. E a escolha pesaria sobre ambos. Um fantasma assombraria seu amor. O casamento fatalmente sofreria. Porque o problema das escolhas difíceis é que temos que fazê-las todo dia. E uma hora elas serão tentadoras demais. Todos temos nosso preço, e quando os sacrifícios atingem esse valor, tudo poderá se perder. Talvez, e isso bem provável, essa escolha arruinasse a maior das histórias de amor. E é por isso que o final de Romeu e Julieta é perfeito. Juntos, provavelmente eles se castigariam para sempre por essa decisão. Se ambos não tivessem morrido, provavelmente não teríamos uma belíssima história de amor. Teríamos um drama, o fim de um relacionamento. Ou uma sitcom.
Não acho que não devamos fazer algumas escolhas difíceis num relacionamento. Mas será que podemos mesmo renunciar a algo fundamental em nossa vida para estar com essa pessoa? Não existe outra maneira? Devemos nos sacrificar em alguns momentos por quem amamos, e sem esperar nada em troca. Mas ou recebemos algo em troca, ou o relacionamento fica desigual. Cedo ou tarde a escolha nos alcança e nos faz pensar "e se?". E será tarde demais.
E a verdade é que certos favores não se pede. E também não se cobra.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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