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26.4.04
Através do Espelho
Costumava me orgulhar de quem eu via no espelho. Era um garoto puro, sincero, honesto. E infeliz. E odiado, xingado, deprimido e marginalizado. Entrei então na faculdade, e conheci o mundo. E quis ter amigos, e quis ser amado. E mudei, cresci, aprendi. Sai da casca, me tornei alguém passível de admiração. De longe, é claro. E droguei-me nos prazeres fáceis da vida. Consegui amigos. Amigos de verdade, amigos que te fazem procurar a virtude, mesmo sabendo que somos todos imperfeitos. E ganhei inimigos. Inimigos que sempre que podem te cutucam, te machucam. Inimigos que saem de seu caminho para te incomodar.
Fugi de mim mesmo, encontrei um outro eu. Um Outro. Troquei o gel pelos cabelos compridos. A decência pela mentira. A virtude pelas vulgaridades. Sempre que saía, bebia e fazia bobagens. Aprendi que a ressaca não é só física, quanto moral. Odiava encontrar um de meus amigos depois de me acabado em alguma balada. Pois, por mais que soubesse que ele não me desquereria, temia que eu pudesse ter feito algo errado. E pudesse ter errado com alguém que não merecia.
Comecei a sentir a necessidade dessas coisas. No começo, lembro-me bem, me esforçava por não beber de vez em quando: no dia em que não me divertisse sem beber, me preocuparia. Me preocupo. Busquei a podridão e chafurdei na lama da futilidade. Lembro-me de uma época em que sentia orgulho de quem eu era, uma pessoa verdadeira. Mas conheci a vida e a vida me fez um conhecido. Endeusei um mundo de superficialidade. Não me envolvi mais. Não conheci pessoas que valessem a pena. Na verdade, acho que elas não são muitas. Tornei-me um adicto. Foi então que me cansei e tateei pelo interruptor. Mas não o achei. Tornei-me uma sombra de mim mesmo, cada vez mais evanescente, cada vez mais amorfa. Tornei-me aquilo que sempre odiei.
E encontrei alguém. Alguém que poderia me salvar. Alguém que também tinha entrado pelos mesmos caminhos vazios e doloridos. Caminhos de prazeres instantâneos, gozos vazios. E encontrei esse alguém. Ela também era uma pessoa que se odiava em muitos momentos. Flores por fora, podres por dentro. E ela me mostrou que havia mais do que só essas vidas.
Mas eu era um adicto. E adictos têm recaídas. Adictos demoram a aprender. Adictos sofrem as dores da abstinência. E quando aprendi, quando finalmente deixei o vício, não olhava mais para a pessoa que amava. Só via uma mão, e deixei de ver os olhos. Deixei de ouvir a boca e almejar os ouvidos. Vivemos vidas secretas, cada um a seu tempo. Cada um por seus motivos. E aprendi que vidas devem ser vividas, não escondidas. E na desilusão de não ser mais feliz ao meu lado, ela procurou aquilo que melhor conhecia. Um lugar sem responsabilidades, sem preocupações. Um caminho parecido com o alcoolismo. Um gole basta. Eu sei bem, é um caminho que eu encaro todo dia. E ainda não sei se posso escapar. Mas agora pelo menos eu sei. Sei que não quero viver sem amor, só de prazeres.
E acabou, e não somos. Fomos. Ou nunca fomos.
E me olhei no espelho. E chorei.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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22.4.04
A certeza da dúvida
Se existe algo com que podemos contar durante toda a nossa vida é a dúvida. Percebi, nos últimos tempos, o quanto a dúvida nos mostra a verdade sobre o que sentimos ou queremos. Entendo agora que, muitas vezes, algo nos é tão importante, mas ao mesmo tempo tão modificador e inevitável, que criamos barreiras, que procuramos motivos para não aceitar essa coisa. Por isso mesmo, acabamos não tendo certeza. Não sabemos se queremos ou não. Sabe de uma coisa? É exatamente ao contrário do que pregam: se você não quisesse, saberia. Quantas vezes você não quis uma coisa com uma certeza inacreditável? E quantas vezes você teve essa certeza sobre algo que você queria? Quando prestou vestibular, tinha certeza da escolha? Como poderia? Não conhecia o suficiente a escolha que estava tomando. A verdade é que quando algo é grande demais, a dúvida vem. E quantas vezes você estava em dúvida sobre alguma coisa e, depois que criou coragem e fez, percebeu que tinha feito a coisa certa?
Acho que todo mundo tem medo de casar. Casar significa se comprometer com algo, alguém, e aceitar que isso deve ser para sempre. E para sempre é tempo demais. Acho que o grande problema é exatamente esse. Se as pessoas aceitassem que querem alguma coisa, ao invés de ficar pensando até que ponto querem e por quanto tempo quererão, a vida seria muito mais fácil. As coisas que realmente valem a pena nessa vida também trazem milhares de dúvidas. É como saltar de Bungee Jump. Você terá dúvida até o último segundo. Na verdade, o momento de maior dúvida e hesitação será exatamente o momento do salto, aquele ponto em que você já está preso à corda, parado à beira do abismo. E encarando o vazio. Será que a corda está bem presa? Será que eu vou sobreviver? Difícil de dizer antes do fim. São os riscos das grandes decisões. Mas pense bem: você já está aqui e as chances de algo dar errado são pequenas. O benefício, o prazer, enormes. Vai perder a chance? Se realmente não quisesse fazê-lo, você dificilmente teria chegado a esse ponto.
Então, quando estiver numa dúvida existencial incrível, pense bem: se você tivesse certeza, ela seria de que você não quer fazer isso. A gente só tem certeza de que quer algo depois que já fez. Ou depois que perdeu essa chance - e aí já é tarde. Eu já me arrependi demais por não ter feito algo devido por não estar certo de querer. E também já fui muito feliz, nas vezes em que aceitei a dúvida como parte da certeza. Aprendi minha lição. Em dúvida, salte.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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19.4.04
Escreveu. Não leu. Não escreveu.
Lidando dia a dia com textos vindos das mais diversas fontes, incluída aí a internet, comecei a perceber algo que deve até ser bem claro para muitos. As pessoas não sabem escrever. Ou melhor, as pessoas sabem escrever. Elas não sabem é ler.
Digo isso porque acredito que a capacidade de alguém escrever está intimamente ligada a quanto ela lê ou o que ela lê. Se ela só folheia livros de auto-ajuda, dificilmente vai conseguir fugir à verborragia demagógica típica dessas publicações. Ou seja, sabe escrever, conhece as letras e muitas palavras, mas não tem referências para conectá-las da melhor forma. Em oposição, é altamente improvável que alguém que leia um volume respeitável e constante de livros não consiga se expressar bem por meio da palavra escrita, mesmo que não se considere criativo. Criatividade nem está em pauta aqui, embora eu acredite que ela tem a ver com a quantidade de estímulos que recebemos - quanto mais lemos, mais informação temos, maior a possibilidade de associações novas. Falo de linguagem mesmo. De bom português. Na hora de dizer o que pensa, muita gente acaba se afogando em frases desconexas e vírgulas fora de lugar. Pior, costumam utilizar-se de jargão técnico para camuflar a falta de conteúdo. Quer um exemplo dessa linguagem? Resultado: a nível des, gerundismos e afins.
E não, isso não é uma daquelas apologias aos Clássicos. Para dizer a verdade, e que nenhum professor de literatura me escute, os Clássicos muitas vezes são chatos. Terrível e irremediavelmente chatos. E, nas palavras de um amigo goiano, é bobagem perder nosso tempo com livros que não gostamos. Livros devem ser um prazer além de serem fonte de conhecimento e cultura. Lê-los pela estrutura sofisticada ou pela linguagem rebuscada? A vida é curta, os livros muitos.
As pessoas têm preguiça de ler. Gostam de tudo mastigadinho. Ou não prestam muita atenção ao que estão lendo. Ler também é interpretar, entender, imaginar, mergulhar nessa outra realidade. Ver os rostos, as cidades, as histórias, como num filme. A diferença é que o diretor de fotografia é você.
A questão não é nem escrever profissionalmente. Não estou pensando em editoriais, matérias ou livros. Mas na escrita diária. Naquele recado pendurado na geladeira que a gente deixa para o pai ou o bilhete apaixonado que mandamos para a namorada. Naquele e-mail que enviamos para os amigos. A redação clara e concisa, como já diziam nossos professores, tornam a leitura e a comunicação da mensagem muito mais fácil. Vírgulas fora de lugar, texto sem pontuação, grafia incorreta. Tudo isso, no mínimo, quebra o ritmo da leitura. No máximo, torna a mensagem incompreensível. São aqueles textos que exigem duas ou três releituras para uma compreensão satisfatória.
Volto ao ponto inicial: as pessoas sabem escrever, não sabem ler. Escrevem o que lêem, e quando não lêem não sabem como se expressar.
E muitos tem preguiça também de pontuar e escrever direito. Acabam escrevendo textos sem muito sentido. Tenho uma birra muito grande com quem acha que escrever é só ir colocando palavras no papel, sem se preocupar se elas estão corretas, se estão bem concatenadas. Jogando vírgulas para o alto e que caiam onde lhes convier. Birra mesmo. Não é purismo. A língua deve servir a nós, e não o contrário. Mas sou partidário da idéia de que precisamos conhecer as regras antes de quebrá-las. É preciso saber quando quebrá-las, com que intuito.
A impressão que tenho é, que para muita gente - e aqui já falo de quem trabalha com a palavra escrita - português correto é pedantismo. Só que não é bem assim. Um texto claro e sem erros é muito mais fácil de ler. Sem palavrismos. Não faz muito sentido que alguém que vive da escrita, seja jornalista, publicitário, ou que use o português constantemente, como advogados e outros escritores casuais, não dão o devido respeito à sua ferramenta de trabalho. Errar, todos erramos. Mas daí a insistir que faz assim de propósito, ou que não é importante escrever tão corretamente. Enfim, desdenhar do português. É o mesmo que um mecânico que só usa o martelo para consertar tudo. Nunca se usa um martelo quando se tenta consertar um carro. É, o problema é que tem muito texto martelado por aí.
Divagações e desabafos à parte, uma boa forma de aprender português de uma maneira fácil e divertida é ler. Sempre. Pode ser até pote de margarina e embalagem de sucrilhos. Ler bulas de remédios e placas de trânsito. Ler livros bons e ruins. J.K. Rowling e Paulo Coelho. José Saramago e Machado de Assis. Ler a ponto de querer fugir para um mundo sem palavras - isso acontece. Mas nem assim desistir, porque isso passa e a vontade retorna.
Leia de modo que você não precise nem mesmo pensar nas palavras. Deixe-as fluir, como um músico faz com as notas. Isso! Leia como um músico tocando um instrumento e não como um matemático fazendo cálculos. Leia sem ver as palavras, pois muitas vezes elas atrapalham. E compreenda o que leu. Vez ou outra, leia um livro que você não consegue entender, sequer terminar o primeiro capítulo. Tente, tente, tente entendê-lo. Interprete-o. Mas se as coisas complicarem, coloque-o de lado. Não tem nada de errado nisso. Agora não me lembro quem disse que só conseguiu apreciar a Divina Comédia na terceira ou quarta leitura - tenho a impressão que foi Woody Allen. Mas depois de um tempo tente ler novamente esse livro. Tenho a impressão de que os livros têm uma dinâmica muito especial: nos encontram somente na hora certa, nunca antes. Foi assim que eu vim a ler As Brumas de Avalon. Tentei duas vezes e desisti. Não consegui terminar nem o primeiro capítulo. Depois de uns dois anos, comecei novamente. E devorei todos os livros da série. E, para ser sincero, odiei a Divina Comédia.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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8.4.04
Coisas que eu odeio no ônibus
Odeio pegar ônibus. Odeio quando alguém está vendendo alguma coisa e coloca um pacote no seu colo. Mesmo que você diga não, enfaticamente. Odeio a palavra busão. Odeio quando chove e dentro fica abafado e ninguém abre a janela e todo mundo fica suado e se encostando. Odeio que os motoristas os chamem de carros. Odeio quando os carros estão lotados e mesmo assim o motorista insiste em parar para pegar mais gente. Odeio quando jogam lixo pela janela. Odeio que ninguém se levante para deixar um idoso ou grávida se sentar. Odeio quando essa pessoa, ainda por cima, está sentada no lugar RESERVADO para idosos e grávidas. Odeio quando o ônibus pára no ponto quando o farol está verde e sai quando já fechou. Odeio quando seu ponto está a menos de 20 metros, mas o farol fechou e o motorista não deixa você descer. E você está atrasado. Odeio quando entram pessoas que começam a falar alto e todos são obrigados a ouvir suas divertidas peripécias. Odeio quando você dorme e alguém passa e dá um puta esbarrão e você quase cai do banco. Odeio o fato de que quase todas as janelas de ônibus só abrem em cima. Quando abrem. Odeio quando é horário de pico e o ônibus está cheio e ele quebra e temos que pegar outro ônibus, igualmente cheio, mas agora tendo que espremer o dobro de pessoas. Odeio quando estamos atrasados e o motorista andam mole, mole. Odeio quando o motorista faz curvas correndo e todas as pessoas caem umas sobre as outras. Odeio o fato de que ônibus entram em greve e conseguem piorar o que já está ruim. Eu odeio ter que pegar ônibus.
Coisas que eu adoro no ônibus
Adoro ultrapassá-los em alta velocidade.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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7.4.04
Buenos Aires
O grande problema de Buenos Aires é que todo mundo já foi.
Sendo assim, se você ainda não foi, vá. Correndo. E não conte pra ninguém. A forma correta de se fazer isso é esperar até que alguém, inadvertidamente, tente comentar como o táxi é barato - você não precisa nem tirar o carro da garagem - ou que ficou deslumbrado com o
Puerto Madero/Show de tango. Aí sim. Você deve então retrucar "é verdade, você foi na loja de roupas/couro/fotografia/antiguidades/perfumes que fica na Calle Florida? É muito barato! E comeu empanadas/parrillada no Palácio das Papas Fritas/Café Tortoni?".
Pronto. Agora ninguém desconfia que as suas malas ainda estão no pé da escada, esperando serem desfeitas.
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Vitor Leal Pinheiro
é o condutor.
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