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As Intermitências da Morte

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25.3.04


Coleções
Era daqueles que colecionavam tudo. Selos, miniaturas, latas, gibis. A lista era infindável. Para ser sincero tinha um fim, sim: amigos. Amigos ele não colecionava. Passava tanto tempo em sebos, feiras ou no quartinho dos fundos, que já não sabia como conversar.
Mas nem sempre tinha sido assim. Na juventude tivera amigos que mal podia contar nos dedos. Aos poucos, no entanto, isso foi mudando. As coleções se apoderando de cada hora do seu dia. A obstinação tornou-se um mal em sua vida. Curiosamente, era o mesmo que o mantinha vivo. O vício o fazia acordar todas as manhãs. Era um colecionador de coleções.
Certa vez, estava entrando em casa, vindo de uma convenção de mangás, e o vigia noturno - daqueles que ficam na guarita dormindo a noite inteira - puxou conversa. Todo embaraçado, não sabia como responder. Um simples Oitudobemcomovai o deixava ansioso. Estava acostumado a discussões objetivas sobre preços e valores de troca.
Então, Seu Zé, o vigia, puxou papo.
- Como vai?
- Eh... tudo bem...
- Sabe o que é? Eu sempre vejo o doutor com essas revistinhas embaixo do braço. O que que o doutor faz com elas?
Em meio à suadeira e à palpitação, teve um estalo: é isso! A coleção definitiva! E respondeu ao guardinha, cheio de expectativa:
- Sou colecionador. Quer dar uma olhada?

No dia seguinte, passou horas e horas na internet. Pesquisou em livros, vasculhou bibliotecas, consultou especialistas. Mas foi só meses mais tarde que descobriu a técnica ideal de embalsamamento.

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Vitor Leal Pinheiro é o condutor. Cadê sua passagem? ()


16.3.04


Prive Pax
Pessoal, essa festa é organizada por amigos para amigos. Quem for amigo, compareça.


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8.3.04


Metaforicamente
Perdi um braço. Não qualquer braço. O braço direito.
E não o braço direito naquele sentido consagrado. Mas o braço direito porque mesmo dispondo de outro, sempre o escolhemos para tudo o que é importante. Um braço de confiança.
Perdi o braço direito. Aquele amigo que estava sempre ali quando eu precisava. Um braço amoroso e muito simpático. Que se divertia comigo sempre: fazíamos tudo, e de tudo, juntos. Os momentos que passamos lado a lado foram, sem exagero, maravilhosos. Um braço realmente companheiro.
Não é que ele me apoiasse cegamente. Esse não era seu costume. Mas me conhecia profundamente. E me compreendia como ninguém. Fazia-me companhia como nunca me tinham feito. Um braço que me defendia com unhas e dentes.
E o mais importante é que eu o conhecia muito bem. Sabia do que ele era capaz e sabia que podia contar com ele para tudo. E, mesmo assim, vez ou outra ele me aprontava uma peça e deixava estarrecido com suas habilidades ocultas.

Meu braço nunca entendeu porque eu queria levá-lo para cima e para baixo. Por ele, não iria em muitas situações. Mas ele não compreendia que o fato de ele estar lá era importante para mim. Sua companhia me dava segurança e me fazia feliz. E onde já se viu não levar seu braço com você? Se ele não estivesse lá, ao meu lado... as coisas simplesmente não seriam iguais. Apesar disso, nunca conseguimos nos divertir completamente nessas ocasiões. Talvez pela insegurança dele, talvez pela negligência minha. O fato é que sem sua companhia, minha mente não conseguia relaxar.

Mas, aos poucos, as juntas começaram a apresentar problemas, e a minha simbiose - sim, é essa a palavra: simbiose - com o braço começou a ruir. Uma dor foi se instalando e eu fui perdendo a sensibilidade, antes tão aparente. Meu querido braço começou a causar sofrimento ao invés de prazer. Para ajudar, não podíamos passar por uma prótese, que lá ia ele se incomodar. Tinha certeza que a qualquer momento eu o trocaria por uma prótese mais vistosa e habilidosa. Nunca compreendeu, apesar dos meus esforços, que uma prótese é só uma prótese. Nunca será mais do que isso: um simulacro.
Tratei do braço por muito tempo. E ele não parou de se esforçar. Apelei até mesmo para a medicina alternativa. Os resultados, ainda que minguados, existiam. Talvez houvesse cura.
Foi então que aconteceu. Amputação. A dor era forte demais. Às vezes, o sofrimento é tal, que desejamos, inconseqüentemente, que ele vá embora não importando as conseqüências. Mesmo que o preço seja a perda de algo cujo valor é incomensurável.

Agora, em recuperação, ainda sinto o braço no lugar em que ele costumava ficar. É como se ele continuasse lá. Um braço amputado algumas vezes chega até a coçar.

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2.3.04


Tenho um amigo grande
Grande no sentido de alto. Grande, porque é grande amigo. Mas não só isso. Grande como Gulliver chegando a Lilliput. Grande por contraste. Grande pelo ambiente.
Ele mora com a família, também de grandes, num pequeno apartamento, daqueles que se atravessa em duas passadas. Curtas. Um apartamento médio para uma criança, pequeno para um adulto (grande).
Não bastasse a família de grandes, ele tem um cachorro: Dálmata e grande.
Mas o que realmente impressiona são as coisas grandes da família de grandes. Tudo lá tem um tamanho especial, ad hoc, feito para criar contraste. Quando faço uma visita, saio pasmo. Fotos não conseguiriam traduzir a impressão que tenho. Só mesmo a imaginação tem espaço para esses antônimos.
Como ia dizendo, é grande por contraste. Tudo o que eles compram vem naquelas embalagens econômicas.
Listerine. Numa casa normal, o frasco tem quanto? Meio litro? Em Lilliput, dois. E, o banheiro, como por antítese, é minúsculo. Salta-se da banheira para o vaso, para a pia, para fora. Cuidado para não esbarrar no Listerine.
Ou o pote de vitaminas, na pequena cozinha. Gigantesco. Dá pra colocar a mão dentro, encher de comprimidos e tirar com a mão fechada. E fazer pouco daquele ditado do macaco e da cumbuca.

Hmmm... Pensando bem, ele sempre toma umas 3 ou 4 pílulas por dia... Será essa casa uma filial do País das Maravilhas? Será meu amigo a própria Alice, que cresceu demais para passar pela porta? Será que estou elucubrando mais do que deveria?

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